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quinta-feira, 25 de julho de 2013

As ideologias e seus brinquedos humanos



por Richard Costa

Anos atrás, um blogueiro, hoje extinto, como todos os bons blogueiros, declarou que não existia direita no Brasil; que não só não existia um partido de direita, como já é lugar-comum dizer, mas sequer um movimento monolítico que representasse um pensamento conservador digno do nome. O que havia era um conglomerado de conservadores solitários espalhados pelo país, sem uniformidade ou consenso, que se consolidava aos poucos.

O que existe agora é um número de indivíduos, de maior ou menor nome, que se declaram conservadores, mas que não praticam o conservadorismo. Não são reacionários, mas meramente reativos. Não se definem por um pensamento conservador maduro, digno, discreto, e sim por uma oposição estridente às modas e celebridades das correntes contrárias. Considerando que não há entre eles um indivíduo que tenha as qualidades inquestionáveis de um líder, é até ridículo falar de oposição. Não há oposição, só há pirraça de comentadores de internet e pensadores marginais.

Acompanhando esses indivíduos nos últimos cinco anos, sendo um deles, cada vez mais ficou nítido o quanto é superficial o ser conservador. Na verdade, não é mais questão de ser, mas de parecer conservador, de fazer pose, de comentar as notícias e os eventos com sarcasmo, adquirir a reputação de conservador, e se fazer ouvir com ecos. Até vá, nada mais natural que a vaidade humana, e entre os esquerdistas chega a ser muito pior.

Mas para essa geração, ser conservador de verdade — cultivar a família, a propriedade, a independência, a dignidade, a discrição, a desconfiança de qualquer ideologia… — é o de menos. Ninguém quer ser o conservador pai-de-família burguês, honesto, trabalhador, generoso, justo. Isso é tudo muito piegas, não tem o glamour de um conservador de internet com milhares de seguidores que comenta toda notícia, que debate e fala mal dos esquerdistas. Não nos faltam conservadores radicais, revolucionários, provocadores… E nada mais são que brinquedos nas mãos de uma ideologia ilegítima.

Quando se percebe isso, todo o ecossistema conservador se revela uma fauna tão asquerosa quanto à da esquerda. Os conservadores têm seus ídolos e bezerros de ouro, tendem a frenesis ideológicos e acessos agudos de sectarismo e vulgaridade, não querem pensar por si, não querem questionar o que outros conservadores pensam, querem apenas seguir um mestre e todos os seus caprichos pessoais, dóceis como um cardume. Não há, portanto, uma diferença essencial entre um esquerdista e um direitista.

Em ambos os casos, não se definem por um pensamento próprio, independente, ativo, mas por um pensamento sempre reativo, sempre em resposta a uma notícia, a um comentário, a uma declaração da corrente contrária. Não passa um dia sem que fiquem batendo boca. Qualquer homem que se preze sabe que seus adversários determinam que tipo de homem ele é. Então, ou não compreendem isso, ou compreendem e têm orgulho de ser equivalentes daqueles que atacam. É muito simples: quem discute com imbecil é seu igual.

Há alguns meses, um arcebispo belga, André-Joseph Léonard, foi interrompido por manifestantes feministas durante um debate, que lhe borrifaram com água enquanto diziam obscenidades. Ele não reagiu de modo algum, nem ao menos olhou para as desgraçadas. Não há atitude mais digna diante de qualquer delírio ideológico.

Opinião e discussão são vícios, e qualquer cretino sabe usar Facebook ou Twitter para bater boca, para disseminar opiniões polêmicas, para reagir a algo de que não gosta. Esses indivíduos não são pundits, não são luminares — são meramente estatísticas.

Se aqueles que se consideram conservadores querem realmente ser dignos do título, devem parar com os comentários sarcásticos e as provocações gratuitas, porque esse é o domínio dos seus adversários, da escória. Se forem de fato conservadores, devem prezar mais a discrição e a dignidade. Mesmo para quem gosta de ler um texto ou comentário breve de algum deles, o sarcasmo constante se torna previsível, irritante, inútil. A incapacidade de mudar de assunto, como notou Churchill, é um dos sinais do fanatismo. Que sejam radicais o quanto quiserem, mas não sejam repetitivos e chatos, aprendam a mudar de assunto, aprendam a falar de literatura, de cinema, de música, de qualquer coisa que não seja política e ideologia.

Há um ensaio de Baudelaire no qual aconselha seus companheiros de ofício literário que parem de reclamar da baixeza do gosto popular, e que em vez disso desenvolvam uma força superior num sentido contrário. O mesmo deve valer para qualquer indivíduo pensante e de bom gosto que não se deixa definir por aquilo a que se opõe.

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