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segunda-feira, 3 de março de 2014

CRÍTICA AO COMUNISMO

Por Jacob Bazarian

 

O MITO E A REALIDADE

 

Segundo a teoria marxista-leninista, o mais eficiente critério da verdade é a prática. É na prática que uma ideia ou teoria deve provar a sua eficiência, a sua veracidade. Eu fui mais feliz que a maioria dos comunistas por ter tido a oportunidade de viver 16 anos na URSS e ter visto com meus próprios olhos as realizações soviéticas. E posso dizer com absoluta convicção que o melhor meio de convencer o comunista sincero de seu erro é mandar viver por muito tempo na União Soviética.


Os estudantes da Universidade "Patrício Lumumba" de Moscou, os bolsistas estrangeiros de outras organizações soviéticas, e os emigrantes políticos que passaram lá um certo período — estes são os maiores inimigos do regime soviético, pois êles o conhecem melhor do que muitos teóricos marxistas ou dirigentes comunistas do exterior (isto é, países fora da. URSS).

O regime soviético jamais será minado, "por fora", pelos seus inimigos de classe, mas o será pelos seus próprios amigos, "de dentro" do movimento, pois a crítica destes é mais eficaz, embora a solidariedade dos "de fora" possa encorajar os "de dentro".

Um grave erro dos ideológicos anti-soviéticos consiste no seguinte: eles exageram tanto as deficiências do regime combatido e ignoram a tal ponto certos aspectos positivos do regime soviético, que a sua propaganda deixa de ser eficaz. Pois o leitor raciocina assim: se os reacionários anti-soviéticos mentem sobre os aspectos positivos da realidade soviética, então tudo o mais pode ser também mentira. (Aliás nesse mesmo erro de parcialidade e subjetivismo incorrem igualmente os propagandistas soviéticos quando combatem o regime "putrefato" do capitalismo).

Em qualquer caso, a crítica é muito mais eficaz quando é objetiva.
Seria muita ingenuidade pensar que um país, com mais de 250 milhões de habitantes, pôde sobreviver durante 50 anos e fazer conquistas científicas em todos os domínios se não tivesse nada de positivo. O regime soviético deu excelentes conquistas sociais, sobretudo para o povo russo que desde sua existência como nação, há cerca de 1.200 anos, vivia em plena servidão.

Entre as conquistas sociais do regime soviético podemos enumerar uma série de regalias inteiramente gratuitas: assistência social e médico-hospitalar, rede imensa de creches, jardins de infância, escolas primárias, secundárias e superiores; bolsas de estudos aos estudantes das escolas técnicas e superiores. Direito ao trabalho, ao descanso e à aposentadoria; direitos iguais à mulher em todos os domínios; habitações gratuitas e muitas outras regalias, sem falar na revolução cultural que transformou o povo soviético num dos povos mais cultos do mundo de hoje. Isto tudo são conquistas inegáveis. A única objeção que temos contra os ideólogos comunistas é que todas essas conquistas sociais podem ser realizadas em regime capitalista, sem necessidade de revoluções sangrentas e repressões em massa de inimigos e até de amigos do regime. Vejam, por exemplo, os países capitalistas mais desenvolvidos da Europa como a França, Inglaterra, Suécia, Dinamarca, Noruega, etc. que conseguiram os mesmos resultados por meios pacíficos.

A maior crítica que se pode fazer ao regime soviético é que ele teórica e praticamente não funciona mais. Por duas razões principais, uma de ordem econômica e outra política:

Em primeiro lugar, a supressão do incentivo individual, do estímulo material, que muitos marxistas soviéticos consideram erroneamente como um princípio capitalista — quando na realidade é um princípio existencial para todas as sociedades e épocas — fez com que, depois de passar o período de entusiasmo revolucionário — próprio ao período imediato após a revolução — os indivíduos perdessem o interesse pelo aumento da produtividade — único elo que pode impulsionar a sociedade para frente.

Em segundo lugar, a supressão dos direitos democráticos e humanos mais elementares — uma conquista dura da humanidade, depois de séculos de lutas, fez com que a sociedade que pretendia construir a organização mais democrática e mais humana, paradoxalmente, se tornasse, na realidade, a sociedade menos democrática e menos humana que se conhece atualmente no mundo civilizado ocidental.

Os ideólogos soviéticos afirmam que construíram uma sociedade nova, radicalmente diferente de todas que já existiram. Com isso pode-se concordar inteiramente. De fato, em toda a história da humanidade jamais houve uma sociedade tão opressiva, onde a violação dos direitos humanos fosse tão radical e total. Nem mesmo Hitler, com todo o seu furor, não chegou aos pés de Stálin na repressão das liberdades humanas.

Os princípios básicos do Partido Comunista Soviético se transformaram, na realidade, no seu oposto: na política interna do Partido, o centralismo democrático se transformou em despotismo autocrático; na política interna do país, a ditadura do proletariado se transformou em ditadura do biurô do C. C. do Partido, e a igualdade de direitos, a soberania e a autodeterminação das repúblicas nacionais se transformou em desigualdade de direitos e submissão total aos interesses da Rússia; na política externa, o internacionalismo proletário, em imperialismo russo, isto é, em submissão dos povos ao "diktat" russo.

Para que a nossa afirmação não pareça destituída de fundamentos, citaremos alguns casos:

A Constituição Soviética, em seus artigos 125 e 126, reza que a lei garante a todos os cidadãos da URSS: a liberdade de palavra; a liberdade de imprensa; a liberdade de reuniões e comícios; a liberdade de desfiles e manifestações públicas e o direito a agrupar-se em organizações sociais. E nos artigos seguintes ( 127 e 128) garante: a inviolabilidade pessoal; a inviolabilidade do domicílio dos cidadãos e o segredo da correspondência. Qualquer pessoa que viveu por um tempo demorado na URSS sabe muito bem que todas essas garantias existem apenas no papel. Na realidade, todos os direitos e liberdades acima enumerados são descaradamente infringidos e violados, em flagrante desrespeito não só à Constituição Soviética, como também aos sagrados Direitos do Homem, aprovados pela ONU com a participação dos representantes da própria URSS.

Uma prova irrefutável do que afirmamos acima está contida na carta que, em maio de 1969, um grupo de intelectuais, professores e cientistas soviéticos (a classe mais bem paga na URSS), desafiando a prisão e a morte, enviou à Comissão dos Direitos do Homem das Nações Unidas, em que denunciam as perseguições políticas e a violação dos direitos cívicos básicos na União Soviética.

Para ilustrar a que absurdo e consequências funestas pode levar a violação dos direitos democráticos, basta citar o seguinte. Segundo à teoria marxista - leninista, nas sociedades divididas em classes antagônicas (como a sociedade capitalista, por exemplo) , a força motriz da evolução é a luta de classes. Nas sociedades socialistas, onde, por definição, não existem mais classes antagônicas, a sociedade só pode evoluir aplicando a crítica nas formas de autocrítica e crítica mútua.

Pois bem, eliminando quase que completamente a crítica — sua fôrça motriz, portanto — o regime soviético eliminou com isso as possibilidades de sua própria evolução. Hoje, não é o regime capitalista que está estagnado — como gostam de afirmar os comunistas, mas é a própria sociedade soviética que está estagnada e em crise, pois uma sociedade que elimina a luta de idéias, elimina sua própria força motriz de desenvolvimento.

(...)

Se os russos gostam do regime soviético é um problema dos próprios russos. Isso é o seu direito. O nosso direito é mostrar-lhes que o que é bons para os russos, necessàriamente, não é bom para os não-russos. Eis uma verdade que deve ser assimilada tanto pelos dirigentes soviéticos, como pelos dirigentes dos partidos comunistas dos países não socialistas. (Esta tese é válida, do mesmo modo, aos que seguem a linha dos comunistas chinêses, cubanos, etc).

Diante do exposto, creio que está claro e evidente, como a luz, que um indivíduo formado nas tradições democráticas e humanísticas do Ocidente não pode, de modo nenhum, aceitar tal regime de servidão e despotismo totalitário. É uma questão de evolução na escala histórica das liberdades humanas.

Existe uma grande defasagem entre o nível de evolução da Rússia e dos países democráticos do Ocidente. Apesar dos progressos feitos, o fato real é que a Rússia continua ainda na rabeira da civilização ocidental. Assim como o homem civilizado se sentiria constrangido e despojado se fosse obrigado a viver num país mais atrasado, do mesmo modo se sentiria o ocidental no regime soviético, no socialismo de caserna que os russos criaram.

Se o regime soviético foi um passo adiante para os russos (isso ainda é problemático) em relação ao czarismo, o mesmo regime seria vários passos para traz para os povos democráticos do Ocidente.

Eis algumas das razões porque abandonei o comunismo russo. Porque sou armênio, porque sou brasileiro, porque sou um indivíduo livre, de mentalidade ocidental e formação humanística, para quem um regime sem respeito à dignidade humana e aos direitos democráticos não tem razão de ser.

Tendo lido e visto o que vi, eu devia fazer uma escolha: entre permanecer fiel aos dogmas do partido ou aos princípios do ideal de um mundo mais justo. Não tive dúvidas. Escolhi a última Só abandonando a traição dos princípios do ideal eu poderia ficar fiel ao meu ideal, a mim mesmo. Cristo já dizia que não se pode servir a dois senhores ao mesmo tempo. Marx e Lênin também diziam o mesmo. E eu também acho que não é possível ser fiel ao ideal da justiça, sendo fiel aos dogmas de um regime e partido que são o oposto da democracia, humanismo e justiça social.

Fonte: Conspiratio 3



Livro: Mito e Realidade sobre a União Soviética - BAZARIAN, Jacob. 

Um comentário:

  1. Estou agradavelmente surpreso. Pudera tal crítica ser pública nas décadas de 70 e 80 quando queríamos revolução, luta armada, com a mesma ferocidade da direita. Não sabíamos, apenas acreditávamos; puro fideismo! Estou lendo o seu livro " O Problema da Verdade"

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