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sexta-feira, 18 de abril de 2014

Pobre América Latina com seus perfeitos idiotas no poder



Por Irapuan Costa Junior

Se ainda não conhece, caro leitor, procure um exemplar. Vale a pena percorrer o livro “Ma­nual do Per­fei­to Idiota Latino-Americano” (Editora Bertrand Brasil). Não só diverte, pelo seu feitio panfletário, como explica muito do que acontece de espantoso ou de fantástico, no Brasil e na América Latina de hoje. Diverte, devo dizer, em termos, por ser fácil, seguindo-o, identificar os perfeitos idiotas que ocupam nossas manchetes, dia após dia. São figuras conhecidas da política nacional ou continental. Ou que não ocupam manchete nenhuma, mas convivem conosco no dia a dia. O livro tem esse lado divertido, de palavras cruzadas fáceis. 

 
Mas é um livro que interpreta as­suntos sérios. Ou não são sérios o descalabro geral venezuelano, o descontrole econômico e político argentino, o aparelhamento geral do Es­ta­do Brasileiro? Foi escrito a seis mãos, pelo colombiano Plinio Apuleyo Mendoza, o cubano Carlos Alberto Montaner e o peruano Álvaro Var­gas Llosa (filho do Prêmio Nobel de literatura Mario Vargas Llosa). 

 
Os três eram esquerdistas, mas por serem inteligentes, viram que tentar apagar fatos reais com a borracha da utopia só resulta em borrar cada vez mais a página da história. E ex-esquerdistas que são, os autores discorrem com conhecimento de causa sobre a esquerdalha imbecilizada que assola o subcontinente. Montaner chegou a ser companheiro de Fidel na revolução cubana, mas hoje é um convicto — e exilado — anticastrista. Os autores são o inverso do perfeito idiota latino-americano, essa figura que, segundo Mário Vargas Llosa, tornou-se idiotizada livre e conscientemente, por preguiça intelectual, apatia ética e oportunismo civil. Que se imbecilizou ideológica e politicamente, contribuindo, pela ação, pelas palavras, pela simples omissão, ou por deixar-se conduzir como um animal, para que seu país percorra os caminhos equivocados do atraso. 

 
Tomemos um trecho do livro. Mais precisamente a abertura do capítulo VII: — “A relação sentimental mais íntima do idiota latino-americano é com a revolução cubana. Trata-se de um velho amor, que nem se esquece e nem se deixa. Um amor antigo e profundo, oriundo de tempos remotos. Em termos concretos, desde 1959, quando uma torrente de barbudos, em cuja crista flutuava Fidel Castro, desceu das montanhas cubanas sobre Havana”. Vem esse trecho bem a propósito de tristes acontecimentos recentes que envolvem os brasileiros.

 
Todos que contemplamos a revolução cubana sentimos a princípio simpatia pelos jovens barbudos que a conduziram. Haviam lutado contra um exército, e contra todas as expectativas, deposto um estereotipado ditador de “banana republic”. Fulgencio Batista era cruel, corrupto, ignorante e amoral. Dominava e explorava, apenas com a força, um dos povos mais prósperos do subcontinente. 

 
A opinião mundial sobre a queda de Fulgencio foi unânime. Aqueles jovens traziam de volta à ilha a democracia e o desenvolvimento, impulsionados por sua juventude e amor a Cuba, acreditava-se. Afinal, Fidel havia afirmado, em 1959, ser uma calúnia taxá-lo de comunista. A simpatia pelos jovens cubanos, salvo da parte dos “perfeitos idiotas”, durou pouco. Eles se entregaram a espetaculares orgias de sangue, com abundantes fuzilamentos dos antigos adversários e de muitos inocentes. Um circo romano. Algumas vezes os próprios líderes da revolução, como Guevara e Raúl, participavam dos assassinatos. 

 
Dois anos depois o próprio Fidel mostrou que a calúnia era uma verdade: “Serei leninista-marxista até o último dia de minha vida” — afirmou em 1961. O resto é sabido, embora pouco divulgado. Os fidelistas sacrificaram ao menos toda uma geração, transformando um povo alegre e trabalhador num dos mais escravizados, tristes e miseráveis do mundo, uma economia pujante em estagnada e um dos mais belos lugares do caribe em um monte de ruínas. 

 
Dois acontecimentos — e a seu propósito citei aquela passagem do livro — mostram que nos governam perfeitos idiotas latino-americanos, cuja relação sentimental mais íntima não é com o Brasil — é com a revolução cubana. Vamos ao primeiro acontecido. Reina uma solene indiferença no governo — e falo de um período de ao menos 15 anos — quanto ao sofrimento de nossos produtores de soja, exportadores, armadores e principalmente — por serem mais frágeis e sofridos — nossos camioneiros. São os clientes nacionais de nossos portos, e quem garante superávits comerciais. 

 
Revistas e jornais estão cheios de notícias e fotografias mostrando as imensas filas de caminhões e carretas aguardando próximo aos portos, por falta de infraestrutura rodoviária e portuária, a sua hora tardia de descarga de uma mercadoria às vezes até já deteriorada e que será perdida. Navios chineses, cansados de esperar por uma carga que tanto demora, já levantaram suas âncoras e se foram do porto de Santos, cancelando suas compras de soja. Condutores de veículos pesados narraram seu sofrimento, que se arrasta por dias, a cada viagem para um porto de embarque. 

 
Falemos desse nosso porto de Santos, o maior da América Latina, que movimenta mais de um quarto de toda carga marítima brasileira. Sabe o leitor que seu calado, pois está já há tempo necessitando de dragagem, é de apenas 12 metros, quando os navios das últimas gerações exigem calado de ao menos 14 metros? Isto significa que só navios mais antigos e de menor tonelagem podem carregar e descarregar em Santos. 

 
E essa é apenas a mais gritante de muitas deficiências. O governo, desde Lula, ignora estas dificuldades e investe no porto cubano de Mariel, e o moderniza, enquanto Santos fica, literalmente... a ver navios. Uma foto fala por mil palavras. Vejam as reportagens. A presidente Dilma, sempre de má catadura no Brasil, áspera com os brasileiros de sua equipe, que nunca é afável ou sorri por aqui, é toda sorrisos e ternura em terras cubanas, carinhosa ao extremo com os tão temidos quanto ignorantes ditadores donos da ilha, no inaugurar o porto cubano. 

 
E que dizer de nossos dólares derramados na ditadura caribenha, doados, pois jamais serão pagos, aplicados ali, quando seu destino natural seria o porto brasileiro de Santos, tão necessitado do dinheiro do BNDES? E a irresponsável (ou criminosa) doação é coroada com a paradoxal condenação feita pela presidente ao “embargo americano sobre Cuba”. Ora, só os perfeitos idiotas latino-americanos acreditam que o embargo americano tem qualquer efeito além do moral. Cuba comercializa com a União Europeia, com China, Rússia, toda a América Latina e o mundo. Se o “cruel embargo imperialista norte-americano” existe na prática, para que modernizar o porto de Mariel? Não está inoperante frente ao mesmo embargo? 

 
Tenham paciência, perfeitos idiotas. Não somos seus colegas. Outro acontecido, que deve ser denunciado à exaustão, é o dos médicos cubanos. Tenho por eles imensa simpatia e compaixão. Estão aliviando, na medida do possível o sofrimento de pessoas pobres e periféricas aqui no Brasil. Temos que agradecer a eles. Devem constituir o único socorro médico a que tem acesso o nosso “lumpemproletariat”. 

 
Por isso, e por sua situação os admiro e reverencio. São submetidos a um medieval estado de servidão humana, é impossível negar (a menos que se seja um perfeito idiota latino-americano). Familiares reféns, vigilância policial cubana mesmo em terras brasileiras, confisco de quase todo o seu salário, impossibilidade de relacionamento livre com brasileiros, passaportes retidos na Em­baixada Cubana, tudo o que as piores ditaduras praticam em seus domínios foi transferido para o Brasil, com a integral aquiescência das autoridades brasileiras, dos perfeitos idiotas latino-americanos que nos governam. É que “a relação mais íntima deles é com a revolução cubana”, e não com o Brasil ou com a democracia, como diz o livro. 

 
A cumplicidade do governo brasileiro com o escravagismo desses médicos enche-me de vergonha. O silêncio das oposições — com raras e por isso mesmo muito honrosas e dignas exceções — também, mormente quando os acordos do Brasil com Cuba são secretos. 

 
Mas que fique claro: ser de esquerda na América Latina não significa necessariamente ser um perfeito idiota. Os sucessivos presidentes de esquerda chilenos, em vez de culpar os EUA pelo atraso do Chile e partirem para o estatismo e o populismo, mantiveram as boas reformas econômicas de Pinochet. Aquele país tem hoje uma invejável economia e uma tessitura social quase de primeiro mundo. Os pobres lá vivem muito melhor do que em todos os outros países de fala espanhola ou portuguesa. 

 
Quanto a nós, temo que um dia durmamos brasileiros e acordemos venezuelanos ou cubanos, recebendo ordens peremptórias, por todos os lados, de perfeitos idiotas latino-americanos. 


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