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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O mito da Terra Plana

Por Jeffrey B. Russell

Como investigar o mito da terra plana ajuda os professores de História da Ciência?

Primeiro, como historiador, eu tenho que admitir que isso nos diz algo sobre o estado precário da História. A História é precária por três razões: a boa é que é extraordinariamente difícil determinar “o que realmente aconteceu” em qualquer série de eventos; a ruim é que o conhecimento histórico é geralmente descuidado; a razão mais temível é que muito do conhecimento histórico consiste em contorcionismo de evidências para encaixá-las em modelos ideológicos. Como exemplos podemos apontar as produções históricas do início e meados do século XX, a respeito do nazismo e do comunismo.

As distorções mais comuns em nossos dias são produzidas pelos incessantes ataques de escritores seculares à cristandade e a religião de modo geral, principalmente durante o último século e meio, ataques estes, responsáveis pela atual zombaria que se faz do Cristianismo em meios acadêmicos e jornalísticos.

Um curioso exemplo de descuido com o passado com a intenção de difamar os cristãos é um erro histórico amplamente reconhecido, um erro que a Historical Society of Britain, há alguns anos, listou em um curto compêndio das mais propagadas ilusões históricas. É a noção de que as pessoas acreditavam que a terra era plana — especialmente os cristãos medievais.

É preciso estabelecer que, com raríssimas exceções, nenhuma pessoa educada na história da Civilização Ocidental do terceiro século a.C. em diante, acreditava que a terra era plana.

A noção de uma terra redonda aparece, pelo menos, seis séculos antes de Cristo, com Pitágoras, seguido por Aristóteles, Euclides e Aristarco, em meio a outros que observaram a esfericidade da Terra. Ainda que existissem algumas discordâncias — Leukippos e Demócrito, por exemplo — , nos tempos de Eratóstenes (300 a.C.), Crates (200 a.C.), Strabo (300 a.C.), e Ptolomeu (100 d.C.), a esfericidade da terra era aceita por todos os Gregos e Romanos educados.

A situação não foi diferente com o advento do Cristianismo. Alguns poucos — pelo menos dois, no máximo cinco — pais do cristianismo primitivo negaram a esfericidade da terra ao interpretar passagens como Salmos 104:2–3, como se tivessem significado geográfico, ao invés de metafórico. Por outro lado, dezenas de milhares teólogos cristãos, poetas, artistas e cientistas, adotaram a ideia de uma terra esférica durante a história do cristianismo, tanto em seu início, quanto no período medieval e moderno da Igreja. O ponto é: nenhuma pessoa educada acreditava no contrário.

Historiadores da ciência tem provado esse ponto por, pelo menos, 70 anos (mais recentemente Edward Grant, David Lindber, Daniel Woodward e Robert S. Westman), sem fazer avanços práticos notáveis contra o erro. Crianças em idade escolar nos EUA, Europa e Japão aprendem essa mesma velha tolice. Como e por que esse absurdo surge?

Em minhas pesquisas, eu procurei entender o quão velha é a ideia de que cristãos medievais acreditavam que a terra era plana. Eu, obviamente, não encontrei essa crença entre os cristãos medievais. Nem entre os protestantes anti-católicos. Nem em Copérnico ou Galileu ou seus seguidores, que haviam demonstrado a superioridade do modelo heliocêntrico, mas não de uma terra esférica. Eu tinha certeza que iria encontrar isso entre os filósofos do século XVIII, ou entre todos os críticos do cristianismo, mas nenhuma palavra. Eu ainda estava atônito a procura do surgimento dessa ideia.

Ninguém antes de 1830 acreditava que os medievais criam em uma terra plana.

A ideia foi estabelecida, quase contemporaneamente, por um francês e um americano, entre os quais eu não pude encontrar conexões, além do fato de ambos estarem em Paris no mesmo momento. O primeiro foi Antoine-Jean Letronne (1787–1848), um acadêmico de fortes preconceitos anti-religiosos, que estudou geografia e patrística e que inteligentemente utilizou-se dos dois para difamar os pais da Igreja e seus sucessores medievais como se eles acreditassem na terra plana, em sua obra On the Cosmographical Ideas of the Church Fathers (1834). O americano não foi outro senão nosso conhecido contador de estórias, Washington Irving (1783–1859), que adorava escrever ficções históricas mascaradas de História. Suas produções absurdas sobre os primeiros anos de Nova Iorque e da vida de Washington foram seguidas por sua história de Cristóvão Colombo (1828). Foi ele quem inventou a imagem indelével do jovem Colombo, um “simples marinheiro” que apareceu perante uma platéia de obscuros inquisidores, cercado por teólogos no Concílio de Salamanca, todos estes criam, segundo Irving, que a Terra era plana como um prato. Bom, sim, houve uma reunião em Salamanca em 1491, mas a versão de Irving, para citar um distinto historiador moderno de Colombo, é “pura fantasia. Washington Irving aproveitou sua oportunidade para uma cena pitoresca”, criou um relato fictício desse “concílio universitário inexistente” e “deixou sua imaginação o levar completamente… a estória toda é um absurdo enganoso e malicioso.”

Mas agora, por que os falsos apontamentos de Letronne e Irving se fixaram e, ainda nos anos 1860, começaram a ser propagados em escolas e apostilas como se fossem verdades?

A resposta é que essa falsidade sobre a terra esférica se tornou uma colorida e inesquecível parte de uma longa mentira: o mito da eterna guerra entre ciência (bem) e religião (mal) por toda a história do Ocidente. Essa vasta teia de pantomimas e patuscadas foi inventada e propagada pelo influente historiador John Draper (1811–1882) e seus prestigiosos seguidores, como Andrew Dickson White (1832–1918), o presidente da Cornell University, que fez questão de que esse embuste fosse perpetuado em textos, enciclopédias, e mesmo em supostos cursos, até os nossos dias. Uma versão viva da mentira pode ser encontrada na obra The Discoverers, de Daniel Boorstin’s, encontrada em qualquer livraria ou biblioteca.

A razão para promover a mentira a respeito da esfericidade e a ideia geral de que religião e ciência são inimigas naturais e eternas na sociedade Ocidental, é a defesa do Darwinismo. A resposta é, na verdade, mais complicada que essa simples afirmação. A mentira da terra plana é munição contra criacionistas. O argumento é simples e poderoso, senão elegante: “Olhe como esses cristãos são estúpidos. Eles estão sempre no caminho da ciência e do progresso. Esse pessoal que nega a evolução hoje é da mesma laia que aquelas pessoas idiotas que, por pelo menos mil anos, negou que a Terra era redonda. Quão estúpido você pode ser?

Mas essa não é a verdade.

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