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sexta-feira, 22 de maio de 2015

Análise de classe marxista e austríaca

Por Hans-Hermann Hoppe

Esta é a tradução de um paper publicado vol. 9, no. 2, do Journal of Libertarian Studies (1993) com o título "Marxist and Austrian Class Analysis".

Pretendo fazer o seguinte neste paper: primeiro apresentar as teses que constituem o núcleo da teoria marxista da história. Meu ponto é que todas elas são essencialmente corretas. Então eu demonstrarei como essas teses verdadeiras são derivadas no marxismo de um ponto de partida falso. Finalmente, eu demonstrarei como o austrianismo, na tradição Mises-Rothbard, pode fornecer uma explicação correta mas categoricamente diferente da validade delas.

Deixe-me começar com o núcleo central do credo marxista:1

(1) "A história da humanidade é a história das lutas de classes."2 É a história das lutas entre uma classe dominante relativamente pequena e uma classe maior de explorados. A forma primária de exploração é econômica: A classe dominante expropria parte da produção dos explorados ou, como os marxistas dizem, "se apropriam do produto de uma mais-valia social" e a usa para seus próprios propósitos de consumo.

(2) A classe dominante é unificada por seu interesse comum em manter sua posição exploratória e maximizar sua mais-valia apropriada. Ela nunca deliberadamente abandona o poder ou a renda advinda da exploração. Em vez disso, qualquer perda de poder ou renda precisa ser recuperada através de conflitos, cujos resultados em última análise depende da consciência de classe dos explorados, i.e., se os explorados estão, e em qual medida, cientes das suas próprias condições e se estão deliberadamente unidos com os outros membros da sua classe em comum oposição à exploração.

(3) O domínio de classe se manifesta primariamente em arranjos específicos com relação à estipulação dos direitos de propriedade ou, na terminologia marxista, em específicas "relações de produção". Para proteger esses arranjos ou relações de produção, a classe dominante forma e está no comando do estado como o aparato de compulsão e coerção. O estado aplica e ajuda a reproduzir uma dada estrutura de classes através da administração de um sistema de "justiça de classe", e ajuda na criação e no suporte de uma superestrutura ideológica criada para dar legitimidade à existência do domínio de classe.

(4) Internamente, o processo de competição dentro da classe dominante gera uma tendência de crescente concentração e centralização. Um sistema multipolar de exploração é gradualmente suplantado por um sistema oligárquico ou monopolista. Menos e menos centros de exploração continuam em operação, e aqueles que continuam são cada vez mais integrados numa ordem hierárquica. E, externamente, e.g., dentro do sistema internacional, esse processo de centralização interna levará (e mais intensamente quanto mais avançado estiver) a guerras imperialistas entre estados e à expansão territorial do domínio explorador.

(5) Finalmente, com a centralização e expansão do domínio explorador gradualmente se aproximando do seu limite de dominação global, o domínio de classe se tornará cada vez mais incompatível com um maior desenvolvimento e avanço das "forças produtivas". Estagnação econômica e crises se tornam mais e mais características e criam as "condições objetivas" para a emergência da consciência de classe revolucionária dos explorados. A situação se torna propícia ao estabelecimento de uma sociedade sem classes, para o "desaparecimento do estado", para "a substituição do governo do homem sobre o homem pela administração das coisas"3 e, como resultado, de prosperidade econômica nunca antes vista.

Todas essas teses são perfeitamente justificáveis, como eu demonstrarei. Infelizmente, no entanto, foi o marxismo, que subscreve a todas elas, que fez mais do que qualquer outro sistema ideológico para desacreditar suas validades por derivá-las de uma teoria de exploração patentemente absurda.

Qual é essa teoria marxista da exploração? De acordo com Marx, os sistemas sociais pré-capitalistas, como a escravidão e o feudalismo, são caracterizados pela exploração. Não há disputa quanto a isso. Afinal, o escravo não é um trabalhador livre e não pode se dizer que ele ganha por estar escravizado. Ao contrário, sua escravização reduz sua utilidade em favor de um aumento na riqueza apropriada pelo escravizador. O interesse do escravo e do dono de escravos é de fato antagônico. O mesmo é verdadeiro quanto aos interesses do senhor feudal que extrai impostos sobre a terra do camponês que se apropriou originalmente dela. Os ganhos do senhor são as perdas do camponês. E também não há disputa quanto ao fato de que tanto a escravidão quanto o feudalismo impedem o desenvolvimento das forças produtivas. Nem o escravo nem o servo são tão produtivos quanto seriam sem a escravidão ou a servidão.

Mas a idéia genuinamente nova do marxismo é a de que essencialmente nada é mudado com relação à exploração sob o capitalismo, i.e., se o escravo se torna um trabalhador livre, ou se o camponês decide cultivar a terra apropriada por outra pessoa e paga o aluguel da terra em troca disso. Para ser preciso, Marx, no famoso vigésimo quarto capítulo do primeiro volume de seu Kapital, intitulado "A Chamada Acumulação Original", fornece uma descrição histórica da emergência do capitalismo que aponta que muitas, ou mesmo que a maior parte, das propriedades capitalistas são resultado de saques, anexações e conquistas. Similarmente, no capítulo 25, sobre a "Moderna Teoria do Colonialismo", o papel da força e da violência na exportação do capitalismo ao que — como diríamos hoje em dia — Terceiro Mundo é fortemente enfatizado. Admitidamente, tudo isso é geralmente correto, e assim não pode haver disputa na rotulação desse capitalismo como explorador. Mas se deve estar atento ao fato de que aqui Marx está executando um truque. Ao fazer investigações históricas e instigar a indignação do leitor quanto às brutalidades subjacentes à formação de muitas fortunas capitalistas, ele põe de lado a questão que tinha em mãos, evitando o fato de que sua tese é na verdade inteiramente diferente: a saber, que mesmo sob um capitalismo "limpo", por assim dizer, i.e., sob um sistema no qual a apropriação original do capital foi resultado de nada mais que homesteading, trabalho e poupança, o capitalista que contratou o trabalho para empregar com seu capital estaria mesmo assim envolvido em exploração. De fato, Marx considerava a prova desta tese como sua mais importante contribuição à análise econômica.

Sua prova do caráter explorador de um capitalismo limpo consiste na observação de que os fatores de produção, em particular dos salários pagos aos trabalhadores pelos capitalistas, são mais baixos que os preços da produção. Ao trabalhador, por exemplo, é pago um salário que representa os bens de consumo que podem ser produzidos em três dias, mas ele na verdade trabalhou cinco dias por seu salário e produz bens de consumo que excedem em valor o que ele recebe como remuneração. A produção de dois dias extras, a mais-valia na terminologia marxista, é apropriada pelo capitalista. Portanto, de acordo com Marx, existe exploração.4

O que há de errado com essa análise?5 A resposta se torna óbvia uma vez que se pergunta por que o trabalhador possivelmente concordaria com esse arranjo! Ele concorda porque seu pagamento salarial representa bens presentes — ao passo que seus serviços de trabalho representam apenas bens futuros — e ele valora mais os bens presentes. Afinal, ele poderia também decidir não vender seus serviços ao capitalista e assim ganhar o "valor total" de sua produção ele mesmo. Mas isso, é claro, implicaria que ele teria que esperar mais tempo por quaisquer bens de consumo para que ficassem disponíveis para ele. Ao vender seu trabalho, ele demonstra que prefere uma menor quantidade de bens de consumo agora a uma quantidade possivelmente maior no futuro. Por outro lado, por que o capitalista quereria selar um acordo com o trabalhador? Por que ele quereria abrir mão de bens presentes (dinheiro) para o trabalhador em troca de serviços que trazem frutos somente mais tarde? Obviamente, ele não quereria pagar, por exemplo, $100 agora se ele fosse receber a mesma quantia no tempo de um ano. Nesse caso, por que não simplesmente ficar com o dinheiro por um ano e receber o benefício extra de tê-lo sob controle durante todo o tempo? Em vez disso, ele precisa esperar receber uma soma maior que $100 no futuro para abrir mão dos $100 agora na forma de salário pago para o trabalhador. Ele precisa esperar ser capaz de auferir lucro, ou mais corretamente um retorno de juros. E ele é constrangido pela preferência temporal, i.e., pelo fato de que um agente prefere invariavelmente bens mais cedo do que mais tarde. Pois se se puder obter uma maior soma no futuro sacrificando uma soma menor no presente, por que então o capitalista não poupa mais do que está poupando? Por que ele não contrata mais trabalhadores do que contrata, se cada um deles promete um retorno de juro adicional? A resposta novamente deve ser óbvia, porque o capitalista é um consumidor também, e não pode não ser um. A quantia de sua poupança e de seus investimentos é restringida pela necessidade que ele, também, como o trabalhador, requer uma oferta de produtos presentes "grande o suficiente para assegurar a satisfação de todos aqueles desejos que são considerados mais urgentes durante o tempo de espera que as vantagens que um período ainda maior de produção poderia prover"6.

O que há de errado com a teoria da exploração de Marx, então, é que ele não entende o fenômeno da preferência temporal como uma categoria universal da ação humana.7 Que o trabalhador não receba seu "valor total" não tem nada a ver com exploração, mas meramente reflete o fato de que é impossível para o homem trocar bens futuros por bens presentes a não ser com um desconto. Ao contrário do caso do escravo e do dono de escravos, onde o último se beneficia às expensas do primeiro, o relacionamento entre o trabalhador livre e o capitalista é mutuamente benéfico. O trabalhador entra no acordo porque, dada sua preferência temporal, ele prefere uma menor quantidade de bens presentes a uma quantidade maior no futuro; e o capitalista entra nele porque, dada sua preferência temporal, ele tem uma preferência de ordem reversa e avalia melhor uma quantidade maior de bens futuros que uma quantidade menor de bens presentes. Seus interesses não são antagônicos, mas harmônicos. Sem a expectativa do capitalista de um retorno de juro, o trabalhador estaria numa situação pior porque teria que esperar mais tempo do que deseja; e sem a preferência do trabalhador por bens presentes, o capitalista estaria numa situação pior porque ele teria que recorrer a métodos com menos estágios e menos eficientes de produção que aqueles que deseja adotar. Nem o sistema salarial capitalista pode ser considerado como um impedimento ao desenvolvimento das forças de produção, como Marx pretende. Se o trabalhador não pudesse vender seus serviços de trabalho e se o capitalista não os pudesse comprar, a produção não seria maior, mas menor, porque a produção teria que se dar com níveis relativamente reduzidos de acumulação de capital.

Sob um sistema de produção socializado, ao contrário das proclamações de Marx, o desenvolvimento das forças produtivas não alcançaria novas alturas, mas, em vez disso, afundaria dramaticamente.8 Porque, obviamente, a acumulação de capital precisa ser feita por indivíduos definidos em pontos definidos do tempo e do espaço através de apropriação, produção ou poupança. Em cada caso, ela é levada a cabo com a esperança de que trará um aumento da produção de bens futuros. O valor que um agente atribui a seu capital reflete o valor que ele atribui a todas as rendas futuras atribuíveis a sua cooperação descontada pela sua taxa de preferência temporal. Se, no caso dos fatores de produção de propriedade coletiva, a um agente não é mais garantido o controle exclusivo sobre seu capital acumulado e, portanto, sobre a renda futura a ser derivada de seu emprego, mas o controle parcial, ao invés disso, é dado aos não-apropriadores originais, não-produtores e não-poupadores, o valor para ele da renda esperada e portanto da de bens de capital é reduzida. Sua taxa efetiva de preferência temporal subirá. Haverá menos apropriação original de recursos cuja escassez é reconhecida e menos poupança para a manutenção de capitais existentes e para a produção de novos bens de capital. O período de produção, o número de estágios da estrutura de produção, será diminuído e um relativo empobrecimento resultará.

Se a teoria de Marx da exploração capitalista e suas idéias sobre como acabar com a exploração e estabelecer prosperidade universal são falsas a ponto de serem ridículas, fica claro que qualquer teoria da história que for derivada dela deve ser falsa. Ou, se estiver correta, ela tem que ter sido derivada incorretamente. Em vez de embarcar na penosa tarefa de explicar todos os erros no argumento marxista derivados de sua teoria de exploração capitalista e terminando em sua teoria de história como eu descrevi anteriormente, eu tomarei um atalho. Eu agora delinearei, de forma mais breve possível a correta — austríaca, misesiana-rothbardiana — teoria da exploração; farei um esboço explicativo de como essa teoria faz sentido a partir da teoria de classes da história; e enfocarei, no caminho, algumas diferenças-chave entre esta teoria de classes e a teoria marxista e também apontarei algumas afinidades intelectuais entre o austrianismo e o marxismo advindas de suas convicções comuns de que há de fato algo como exploração e uma classe dominante.9

O ponto de partida para a teoria da exploração austríaca é claro e simples, como deve ser. Na verdade, ele já foi estabelecido através da análise da teoria marxista: a exploração caracterizava o relacionamento entre escravo e mestre e entre servo e senhor feudal. Mas nenhuma exploração foi possível encontrar sob um capitalismo limpo. Qual é a diferença em princípio entre os dois casos? A resposta é: o reconhecimento ou não do princípio do homesteading [N.T.: Isto é, o princípio pelo qual os recursos naturais podem ser apropriados originalmente colocando-os em uso ou, nas palavras de John Locke, "misturando-se trabalho" a eles]. O camponês sob o feudalismo é explorado porque ele não tem controle exclusivo sobre a terra de que se apropriou originalmente, e o escravo porque ele não tem controle exclusivo sobre seu próprio corpo apropriado. Se, por um lado, todos têm controle exclusivo sobre os próprios corpos (se for um trabalhador livre, isto é) e age de acordo com o princípio do homesteading, não pode haver exploração. É logicamente absurdo dizer que uma pessoa que se apropria de bens previamente não apropriados por ninguém, ou que emprega esses bens na produção de bens futuros, ou que poupa os bens presentemente apropriados ou produzidos para aumentar a futura oferta de bens, poderia dessa forma explorar alguma pessoa. Nada pode ser tirado de ninguém nesse processo, e bens adicionais na verdade foram criados. E seria igualmente absurdo dizer que um acordo entre diferentes homesteaders, poupadores e produtores em relação a seus bens ou serviços não-exploratoriamente apropriados pode possivelmente conter qualquer exploração. Ao invés disso, a exploração acontece quando ocorre algum desvio do princípio do homesteading. A exploração ocorre quando quer que uma pessoa se consegue o controle parcial ou total sobre recursos de que ela não se apropriou original, não poupou nem produziu e que não adquiriu contratualmente de um prévio proprietário-produtor. A exploração é a expropriação dos homesteaders, produtores e poupadores por não-homesteaders, não-produtores, não-poupadores e não-contratantes que chegaram mais tarde; é a expropriação de pessoas cujas reclamações de propriedade são baseadas no trabalho e no contrato por pessoas com reclamações derivadas do nada e que desconsideram o trabalho e os contratos dos outros.10

Não é necessário dizer que a exploração assim definida é, de fato, uma parte integral da história humana. Se pode adquirir e aumentar a própria riqueza tanto através do homesteading, da produção, da poupança ou de contratos ou expropriando homesteaders, produtores, poupadores ou contratantes. Não há outras formas. Ambos os métodos são naturais à humanidade. Junto com a apropriação original, a produção e a contratação, sempre houveram aquisições de propriedade não-produtivas e não-contratuais. E no curso do desenvolvimento econômico, assim como os produtores e contratantes podem formar firmas, empreendimentos e corporações, também os exploradores podem criar empreendimentos, governos e estados exploradores em larga escala. A classe dominante (que pode ser novamente estratificada) é inicialmente composta dos membros dessa firma exploradora. E com uma classe dominante estabelecida sobre um dado território e ocupando-se de expropriar os recursos econômicos de uma classe de produtores explorados, o centro de toda a história de fato se torna a luta entre os exploradores e os explorados. A história, então, corretamente contada, é essencialmente a história das vitórias e derrotas dos dominadores em sua tentativa de maximizar suas rendas exploratoriamente adquiridas e dos dominados em suas tentativas de resistir e reverter essa tendência. É nessa abordagem da história que os austríacos e os marxistas concordam e por que uma notável afinidade intelectual entre as investigações históricas austríacas e marxistas existe. Ambas as tendências se opõem a uma historiografia que reconhece apenas ação ou interação, econômica e moralmente no mesmo nível; e ambas se opõem a uma historiografia que, em vez de adotar uma posição neutra, pensa que se pode inserir os julgamentos de valor subjetivos do historiador para fornecer o mote para suas narrativas histórias. Em vez disso, a história precisa ser contada em termos de liberdade e exploração, parasitismo e empobrecimento econômico, propriedade privada e sua destruição — do contrário é contada falsamente.11

Enquanto os empreendimentos produtivos vão e vêm por causa do suporte voluntário (ou de sua ausência) dos consumidores, uma classe dominante nunca chega ao poder porque há uma demanda por ela, nem abdica quando a abdicação é demonstradamente demandada. Não se pode dizer, nem se se esticar muito a imaginação, que os homesteaders, produtores, poupadores e contratantes demandaram suas próprias expropriações. Eles devem ser coagidos a aceitá-la, e isso prova conclusivamente que a firma exploradora não é demandada de forma alguma. Também não se pode dizer que uma classe dominante pode ser trazida abaixo pela abstenção das transações com ela da mesma forma que se pode trazer abaixo um empreendimento produtivo. Pois a classe dominante adquire sua renda através de transações não-produtivas e não-contratuais e assim não é afetada por boicotes. Em vez disso, o que torna o nascimento de uma firma exploratória possível, e o que pode sozinha trazê-la abaixo, é o estado específico da opinião pública ou, na terminologia marxista, um específico estado de consciência de classe.

Um explorador cria vítimas e vítimas são inimigos potenciais. É possível que essa resistência seja quebrada pela força, como, por exemplo, no caso de um grupo de homens explorando outro grupo mais ou menos do mesmo tamanho. Entretanto, mais que força é necessária para expandir a exploração sobre uma população de muitas vezes o seu tamanho. Para que isso aconteça, uma firma precisa também ter suporte do público. A maioria da população precisa aceitar as ações exploratórias como legítimas. Essa aceitação pode variar do entusiasmo ativo à resignação passiva. Mas ela precisa ser uma aceitação no sentido em que uma maioria precisa ter deixado de lado a idéia de ativa ou passivamente resistir a qualquer tentativa de aquisição de propriedade não-produtiva ou contratualmente. A consciência de classe precisa estar baixa, subdesenvolvida e vaga. Somente enquanto esse estado de coisas existir haverá espaço para uma firma exploradora prosperar, mesmo se nenhuma demanda verdadeira por ela existir. Somente se os explorados e expropriados desenvolverem uma idéia clara de suas próprias situações e se unirem com outros membros da própria classe através de um movimento ideológico que dê expressão à idéia de uma sociedade sem classes onde toda exploração é abolida, o poder da classe dominante pode ser quebrado. Somente se a maioria do público explorado se tornar integrado deliberadamente em tal movimento e, de acordo, se mostrar ultrajado com todas as aquisições de propriedade não-produtivas e não-contratuais, demonstrar um desprezo comum por todos que se envolvem nesses atos e deliberadamente não contribui com nada para fazê-los vitoriosos (sem mencionar ativamente tentar obstruí-los), pode aquele poder vir abaixo.

A gradual abolição do domínio feudal e absolutista e o nascimento de sociedades crescentemente capitalistas na Europa Ocidental e nos Estados Unidos — acompanhada por um crescimento econômico e crescente população — foi resultado de uma crescente consciência de classe entre os explorados, que foram ideologicamente moldados juntos através das doutrinas dos direitos naturais e do liberalismo. Nisso os austríacos e os marxistas concordam.12 Eles discordam, contudo, quanto a se inverso desse processo de liberalização e se os níveis rapidamente aumentados de exploração nessas sociedades desde o último terço do século XIX, e particularmente pronunciados desde a Primeira Guerra Mundial, são resultado de uma perda da consciência de classe. Na verdade, na visão austríaca, o marxismo precisa aceitar muito da culpa por esse desenvolvimento por mal-direcionar a atenção do correto modelo de exploração do homesteader-produtor-poupador-contratante versus o não-homesteader-produtor-poupador-contratante para o falacioso modelo do trabalhador assalariado versus o capitalista, assim confundindo as coisas.13

O estabelecimento de uma classe dominante sobre uma classe explorada de muitas vezes o seu tamanho pela coerção e pela manipulação da opinião pública, i.e., um baixo grau de consciência de classe entre os explorados, encontra sua expressão institucional mais básica na criação de um sistema de direito público sobreposto ao do direito privado. A classe dominante se dissocia e protege sua posição como classe dominante adotando uma constituição para as operações de sua própria firma. Por um lado, ao formalizar as operações internas dentro do aparato do estado e suas relações com a população explorada, uma constituição cria algum grau de estabilidade legal. Quanto mais familiar e popular as noções de direito privado estiverem incorporadas na constituição e no direito público, mais favoravelmente disposto estará o público a aceitar a existência do estado. Por outro lado, qualquer constituição e direito público também formaliza o status imune da classe dominante em relação ao princípio do homesteading. Ela formaliza o direito dos representantes do estado de se envolverem em aquisições de propriedade não-produtivas e não-contratuais e a subordinação última do direito privado ao direito público. A justiça de classe, i.e., um conjunto de leis para os governantes e outro para os governados, vem a sustentar esse dualismo do direito público e privado e a dominação e infiltração do direito público sobre e dentro do direito privado. Não é por que os direitos de propriedade privada são reconhecidos pela lei, como os marxistas pensam, que a justiça de classe é estabelecida. Na verdade, a justiça de classe surge precisamente quando uma distinção legal existe entre uma classe de pessoas agindo sob e sendo protegida pelo direito público e outra classe agindo sob e sendo protegida por um direito privado subordinado. Mais especificamente então, a proposição básica da teoria marxista do estado, em particular, é falsa. O estado não é explorador porque protege os direitos de propriedade dos capitalistas, mas porque ele próprio está isento da restrição de ter que adquirir propriedade produtiva ou contratualmente.14

Apesar desse erro fundamental, contudo, o marxismo, porque corretamente interpreta o estado como explorador (ao contrário, por exemplo, da escola escolha pública [N.T.: Public Choice School], que o vê como uma firma normal entre outras15), nos fornece alguns insights importantes com relação à lógica das operações do estado. Por exemplo, ele reconhece a estratégica função das políticas estatais redistributivas. Como uma firma exploratória, o estado precisa a todos os momentos estar interessado num baixo grau de consciência de classe entre os dominados. A redistribuição de propriedade e de renda é a forma pela qual o estado pode criar uma divisão entre o público e destruir a formação de uma consciência de classe unificada entre os explorados. Além disso, a redistribuição de poder estatal em si, através da democratização da constituição estatal, da abertura de todas posições de governo para todos e da concessão a todos do direito de participar na determinação dos empregados e das políticas do estado, é um meio de reduzir a resistência à exploração como tal. Ademais, o estado é, de fato, como os marxistas o vêem, o grande centro de propaganda ideológica e mistificação: exploração é liberdade; impostos são de fato contribuições voluntárias; relações não-contratuais são na verdade "conceitualmente" contratuais; ninguém é governado por ninguém, mas nós todos governamos nós mesmos; sem o estado não haveria lei nem segurança; e os pobres morreriam, etc. Tudo isso é parte da superestrutura ideológica desenhada para legitimar uma base subjacente de exploração econômica.16 E finalmente, os marxistas também estão certos em perceberem a próxima associação entre o estado e os negócios, especialmente com a elite bancária — embora a explicação deles para isso seja incorreta. A razão não é que o establishment burguês veja e apóie o estado como protetor dos direitos de propriedade privada e do contratualismo. Pelo contrário, o establishment corretamente percebe o estado como a antítese da propriedade privada e tem interesse nele por essa razão. Quanto mais bem sucedido for um negócio, maior o perigo potencial da exploração governamental, mas também maior são os potenciais ganhos que podem ser auferidos se ele puder conseguir a proteção especial do governo e ficar isento do peso total da competição capitalista. A elite dominante, por seu lado, tem interesse na cooperação com o establishment dos negócios por causa de seu poder financeiro. Em particular, a elite bancária é de interesse porque, como uma firma exploratória, o estado naturalmente deseja possuir completa autonomia para falsificar moeda [N.T.: "counterfeiting", o estado quer ter autonomia para expandir a base monetária sem restrições.]. Ao se oferecer para incluir a elite bancária em suas próprias maquinações falsificadoras e ao permitir que eles falsifiquem moeda em adição às suas próprias notas falsificadas sob um regime bancário de reserva fracionária, o estado pode facilmente alcançar seu objetivo e estabelecer um sistema estatal de moeda monopolizada e de bancos cartelizados controlados pelo banco central. E através dessa direta conexão falsificadora com o sistema bancário e por extensão com os maiores clientes dos bancos, a classe dominante de fato se estende muito além do aparato do estado até os nervos centrais da sociedade civil — não muito diferente, pelo menos em aparência, da imagem que os marxistas gostam de retratar da cooperação entre bancos, elites empresariais e o estado.17

Competição dentro da classe dominante e entre diferentes classes dominantes traz uma tendência de crescente concentração. O marxismo está certo neste ponto. No entanto, sua incorreta teoria da exploração novamente o leva a localizar a causa dessa tendência no local errado. O marxismo vê essa tendência como inerente na competição capitalista. Contudo, é precisamente enquanto as pessoas estão envolvidas num capitalismo limpo que a competição não é uma forma de interação de soma-zero. O homesteader, o produtor, o poupador e o contratante não ganham às expensas dos outros. Os ganhos deles ou deixam as possessões físicas dos outros completamente inalteradas ou implicam ganhos mútuos (como no caso de todas as trocas contratuais). Pode-se dizer então que o capitalismo aumenta a riqueza absoluta. Mas sob seu regime, nenhuma tendência sistemática rumo a uma concentração relativa pode se dizer que existe.18 Em vez disso, interações de soma-zero caracterizam não somente o relacionamento entre o governante e o governado, mas também entre governantes que competem entre si. A exploração, definida como aquisições de propriedade não-produtivas e não-contratuais, só é possível enquanto houver o que apropriar. Entretanto, se houvesse competição livre no ramo da exploração, não haveria nada restante para expropriar. Assim, a exploração requer um monopólio sobre um dado território e sua população; e a competição entre os exploradores é, por sua própria natureza, eliminatória e precisa desencadear uma tendência à relativa concentração de firmas exploratórias assim como uma tendência à centralização em cada uma dessas firmas. O desenvolvimento de estados em vez de firmas capitalistas provê a maior ilustração dessa tendência: há agora um número significativamente menor de estados com controle exploratório sobre territórios muito maiores que nos séculos anteriores. E dentro de cada aparato estatal, houve de fato uma constante tendência de aumento dos poderes do governo central às expensas de suas subdivisões regionais e locais. No entanto, fora do aparato estatal uma tendência de relativa concentração também se tornou aparente pela mesma razão — não, como deve estar claro agora, por conta de qualquer característica inerente ao capitalismo, mas porque a classe dominante expandiu seu domínio para a sociedade civil através da criação de uma aliança de estados-bancos-empresas e, em particular, através do estabelecimento de um sistema de banco central. Se uma concentração e centralização do poder estatal toma lugar, é apenas natural que seja acompanhada por um processo paralelo de relativa concentração e cartelização do sistema bancário e da indústria. Junto com maiores poderes estatais, aumentam os poderes dos bancos e das empresas do establishment de eliminar ou de colocar os competidores em desvantagem por meio de expropriações não-produtivas e não-contratuais. A concentração nos negócios é o reflexo de uma "estatização" da vida econômica.19

Os meios primários para a expansão dos poderes do estado e para a eliminação de centros de exploração rivais é a guerra e a dominação militar. Competição interestados implica uma tendência à guerra e ao imperialismo. Como centros de exploração, seus interesses são por natureza antagonísticos. Além disso, com cada um deles — internamente — em comando do instrumento de taxação e de absolutos poderes de falsificação de moeda, é possível para as classes dominantes fazerem os outros pagarem por suas guerras. Naturalmente, se uma pessoa não tem que pagar ela própria pelos próprios empreendimentos arriscados, mas pode forçar os outros a fazê-lo, ela tenderá a assumir mais riscos e a ser mais beligerante do que de outra forma seria.20 O marxismo, ao contrário de muitas das chamadas ciências sociais burguesas, apreende corretamente os fatos: há de fato uma tendência ao imperialismo operando na história; e os maiores poderes imperialistas são de fato as nações capitalistas mais avançadas. Contudo, a explicação novamente é incorreta. É o estado, como uma instituição isenta das regras capitalistas de aquisições de propriedade, que é por sua natureza agressivo. E a evidência histórica de uma correlação próxima entre o capitalismo e o imperialismo apenas aparentemente contradiz isso. Ela encontra sua explicação, facilmente, no fato de que para suceder nas guerras interestados, um estado precisa ter comando de suficientes recursos econômicos (em termos relativos). Tudo o mais constante, o estado com mais amplos recursos vencerá. Como uma firma exploradora, o estado é por natureza destrutivo da riqueza e da acumulação de capital. A riqueza é produzida exclusivamente pela sociedade civil; e quanto mais fracos os poderes estatais de exploração, mais riqueza e capital a sociedade acumula. Assim, paradoxal como possa parecer, quanto mais fraco ou mais liberal um estado for internamente, mais o capitalismo se desenvolve; extrair recursos de uma economia capitalista desenvolvida torna o estado mais rico; e um estado mais rico empreende mais e mais bem sucedidas guerras expansionistas. É esse relacionamento que explica por que inicialmente foram os estados da Europa Ocidental, e em particular a Grã-Bretanha, as maiores potências imperialistas, e por que no século XX esse papel foi assumido pelos Estados Unidos.

E uma explicação similarmente direta, embora novamente totalmente não-marxista, existe para a freqüente observação marxista de que o establishment bancário e empresarial está usualmente entre os mais ardentes apoiadores da força militar e do expansionismo imperial. Esse suporte não ocorre porque a expansão dos mercados capitalistas requer exploração, mas porque a expansão dos negócios protegidos e privilegiados pelo estado requer que tal proteção seja estendida também aos países estrangeiros e que os competidores externos sejam impedidos através de aquisições de propriedade não-contratuais e não-produtivas, da mesma forma ou mais pronunciadamente que na competição interna. Especificamente, o establishment apóia o imperialismo se esse suporte promete levar a uma posição de domínio militar do estado aliado sobre outro estado. Porque, então, a partir de uma posição de força militar, se torna possível estabelecer um sistema do que se pode chamar de imperialismo monetário. O estado dominante usará seu poder superior para aplicar uma política de inflação internacionalmente coordenada. Seu próprio banco central estabelece o ritmo do processo de falsificação de moeda e os bancos centrais dos estados dominados são obrigados a usar sua moeda como suas próprias reservas e causar inflação a partir delas. Assim, junto com o estado dominante e sendo os primeiros recebedores das reservas de moeda falsificadas, o establishment bancário e empresarial pode se envolver em expropriações quase que sem custos de propriedades estrangeiras e de produtores de riqueza. Uma dupla camada de exploração de um estado estrangeiro e uma elite estrangeira sobre o estado e a elite nacionais é imposta sobre a classe explorada dos territórios dominados, causando prolongada dependência econômica da nação dominadora e relativa estagnação econômica em relação à ela. É essa situação — altamente não-capitalista — que caracteriza o status dos Estados Unidos e do dólar americano e que dá ensejo às — corretas — acusações em relação à exploração econômica dos Estados Unidos e do imperialismo do dólar.21

Finalmente, a crescente concentração e centralização de poderes exploratórios leva a uma estagnação econômica e assim cria as condições objetivas para a destruição final desses poderes e para o estabelecimento de uma sociedade sem classes capaz de produzir uma prosperidade econômica jamais vista.

Ao contrário do que dizem os marxistas, essa sociedade não será o resultado de nenhuma lei histórica. De fato, não existem tais leis históricas inexoráveis, como os marxistas concebem.22 Também não será o resultado de uma tendência de queda da taxa de lucros com um aumento da composição orgânica do capital (um aumento na proporção de capital constante em relação ao variável, isto é), como Marx pensava. Assim como a teoria do valor-trabalho é irreparavelmente falsa, também o é a lei da tendência de queda da taxa de lucros, a qual é baseada nela. A fonte do valor, o juro, e o lucro não são exclusivamente advindos do gasto de trabalho, mas de algo muito mais geral: da ação, i.e., do emprego de meios escassos na busca por fins pelos agentes que são constrangidos pela preferência temporal e pela incerteza (conhecimento imperfeito). Não há razão para supor, então, que as mudanças na composição orgânica do capital devessem ter qualquer relação sistemática com as mudanças no juro e no lucro.

Em vez disso, a probabilidade de crises que estimulem o desenvolvimento de um maior grau de consciência de classe (i.e., as condições subjetivas para a derrubada da classe dominante) aumenta por causa — para usar um dos termos favoritos de Marx — da "dialética" da exploração sobre a qual eu falei anteriormente: a exploração é destruidora da formação de riqueza. Portanto, na competição de firmas exploratórias, estados menos exploradores tendem a ocupar o lugar dos mais exploradores porque têm comando de recursos mais amplos. O processo de imperialismo inicialmente tem um efeito relativamente liberador nas sociedades ficando sob seu controle. Um modelo relativamente mais capitalista é exportado para sociedades menos capitalistas (mais exploradoras). O desenvolvimento das forças produtivas é estimulado; a integração econômica é aumentada, a divisão do trabalho é estendida e um genuíno mercado mundial é estabelecido. A população aumenta em resposta e as expectativas sobre o futuro econômico aumentam para alturas nunca antes vistas.23 Com o domínio exploratório assumindo o controle e a competição interestados reduzida ou mesmo eliminada num processo de expansionismo imperialista, entretanto, as limitações externas sobre o poder do estado dominante de exploração interna e expropriação gradualmente desaparece. A exploração interna, a taxação e a regulação começam a aumentar quanto mais perto a classe dominante chega ao seu objetivo final de dominação global. A estagnação econômica se estabelece e as expectativas — mundiais — maiores são frustradas. E isso — as grandes expectativas e uma realidade econômica cada vez mais as frustrando — é a clássica situação para a emergência de um potencial revolucionário.24 Uma necessidade desesperada por soluções ideológicas para as crises emergentes aumenta, junto com um mais disseminado reconhecimento do fato de que o domínio estatal, a taxação e a regulação — longe de oferecerem uma solução — na verdade constituem o real problema que precisa ser superado. Se nessa situação de estagnação econômica, crises e desilusão ideológica25 uma solução positiva é oferecida na forma de uma sistemática e compreensiva filosofia libertária aliada à sua contraparte econômica, a Escola Austríaca de economia, e se essa ideologia for propagada por um movimento ativista, então os prospectos de dar ignição ao potencial revolucionário ao ativismo se tornam altamente positivos e promissores. As pressões anti-estatistas aumentarão e trarão uma tendência irresistível ao desmonte do poder da classe dominante e do estado como seu instrumento de exploração.26

Se isso acontecer, contudo, isso não resultará — ao contrário do modelo marxista — na propriedade social dos meios de produção. Na verdade, a propriedade coletiva é não apenas economicamente ineficiente, como já foi explicado, mas incompatível com a idéia de que o estado vai "desaparecer".27 Pois se os meios de produção são de propriedade coletiva, e se for realisticamente assumido que nem todas as idéias sobre como empregar esses meios coincidem (como se por milagre), então são precisamente os meios de produção de propriedade social que requerem ações estatais contínuas, i.e., uma instituição coercitivamente impondo a vontade de uma pessoa sobre outra. Em vez disso, o desaparecimento do estado, e com isso o fim da exploração e o início da liberdade e de uma prosperidade econômica jamais vista, significa o estabelecimento de uma sociedade puramente privada, regulada por nada mais que o direito privado.

Notas:

1 Sobre o seguinte, veja K. Marx e F. Engels, Manifesto Comunista (1848); K. Marx, Das Kapital, 3 vols. (1867; 1885; 1894); dos marxistas contemporâneos, E. Mandel, Marxist Economic Theory (Londres: Merlin, 1962); idem, Late Capitalism (londres: New Left Books, 1975); P. Baran e P. Sweezy, Monopoly Capital (Nova York: Monthly Review Press, 1966); para uma perspectiva não-marxista, L. Kolakowski, Main Currents of Marxism, G. Wetter, Sovietideologie heute (Frankfurt/M.: Fischer, 1962), vol. 1; W. Leonhard, Sovietideologie heute (Frankfurt/M.: Fischer, 1962), vol. 2.

2 Manifesto Comunista, seção 1.

3 Manifesto Comunista, seção 2, últimos dois parágrafos; F. Engels, Von der Autoritaet in: Marx e Engels, Ausgewaehlte Schriften, 2 vols. (Berlim Ocidental: Dietz, 1953), vol. 1, p. 606; idem, Die Entwicklung des Sozialismus von der Utopie zur Wissenschaft, idem, vol. 2, p. 139.

4 Veja K. Marx, Das Kapital, vol. 1; a apresentação mais curta é seu Lohn, Preis, Profit (1865). Na verdade, para provar a tese marxista mais específica de que exclusivamente o dono do trabalho é explorado (mas não o dono de outro fator de produção originário: a terra), outro argumento seria necessário. Pois se fosse verdadeiro que a discrepância entre o preço dos fatores e da produção constitui uma relação exploratória, isso apenas mostraria que o capitalista que contrata serviços de trabalho de um trabalhador e serviços da terra de um dono de terras exploraria ou o trabalho, ou a terra, ou ambos simultaneamente. É a teoria do valor-trabalho, é claro, que tem que prover o elo perdido aqui ao tentar estabelecer o trabalho como a única fonte do valor. Eu me pouparei da tarefa de refutar essa teoria. Poucos restam hoje em dia, mesmo entre aqueles que se dizem marxistas, que não reconheçam o erro da teoria do valor-trabalho. Em vez disso, eu aceitarei, para argumentar, a sugestão feita, por exemplo, pelo auto-proclamado "marxista analítico" J. Roemer em A General Theory of Exploitation and Class (Cambridge: Harvard University Press, 1982); e Value, Exploitation and Class (Londres: Harwood Academic Publishers, 1985), de que a teoria da exploração pode ser separada analiticamente da teoria do valor-trabalho; e que uma "teoria geral da exploração da mercadoria" [N.T.: "generalized commodity exploitation theory"] pode ser formulada e justificada mesmo que a teoria do valor-trabalho não seja correta. Eu pretendo demonstrar que a teoria marxista de exploração não tem sentido mesmo se fôssemos absolver seus proponentes de ter que provar a teoria do valor-trabalho e, de fato, mesmo que a teoria do valor-trabalho fosse verdadeira. Mesmo uma teoria geral da exploração de mercadoria não fornece escapatória da conclusão de que a teoria da exploração marxista está errada.

5 Sobre o seguinte, veja E. v. Böhm-Bawerk, The Exploitation Theory of Socialism-Communism (South Holland: Libertarian Press, 1962).

6 L. v. Mises, Human Action (chicago: Regnery, 1966), p. 407; veja também M. N. Rothbard, Man, Economy, and State (Los Angeles: Nash, 1970), pp. 300-01.

7 Sobre a teoria do juro da preferência temporal, em adição aos trabalhos citados nas notas 5 e 6, veja também F. Fetter, Capital, Interest, and Rent (Kansas City: Sheed Andrews and Mcmeel, 1977).

8 Sobre o seguinte, veja H. H. Hoppe, A Theory of Socialism and Capitalism (Boston: Kluwer, 1988); idem, "Why Socialism Must Fail", Free Market, Julho 1988; idem, "The Economics and Sociology of Taxation", in: Taxation: An Austrian View, editado por Lew Rockwell (Auburn: Mises Institute, 1990). Prestes a ser publicado.

9 As contribuições de Mises à teoria da exploração e de classe não são sistemáticas. No entanto, através de seus escritos, ele apresenta interpretações históricas e sociológicas que são análises de classe, mesmo que implicitamente. Digna de nota aqui é a sua aguda análise da colaboração entre o governo e a elite bancária em destruir o padrão-ouro para aumentar seus poderes inflacionários como meio de redistribuição de renda e riqueza fraudulenta e exploratoriamente em favor deles próprios. Veja, por exemplo, seu Monetary Stabilization e Cyclical Policy (1928) in: idem, On the Manipulation of Money and Credit, editado por B. Greaves (Dobbs Ferry: Free Market Books, 1978); veja também seu Socialism (Indianapolis: Liberty Fund, 1981), capítulo 20; The Clash of Group Interests and Other Essays, Occasional Paper no. 7 (Nova York: Center for Libertarian Studies, 1978). Contudo, Mises não fornece um status sistemático à análise de classe e à teoria da exploração porque ele em última análise incorretamente concebe exploração como um mero erro intelectual, que a análise econômica correta pode dissipar. Ele falha em reconhecer completamente que a exploração é também, e provavelmente bem mais, um problema de motivação moral que existe a despeito de toda análise econômica. Rothbard adiciona este insight à estrutura misesiana da economia austríaca e torna a análise do poder e das elites de poder uma parte integral da teoria econômica e das explicações históricas-sociológicas; e ele sistematicamente expande o argumento austríaco contra a exploração para incluir a ética em adição à teoria econômica, i.e., uma teoria de justiça lado a lado de uma teoria de eficiência, pois assim a classe dominante pode também ser atacada como imoral. Para a teoria do poder, classe e exploração de Rothbard, veja em particular seu Power and Market (Kansas City: Sheed Andrews and McMeel, 1977); For a New Liberty (New York: McMillan, 1978); The Mystery of Banking (Nova York: Richardson and Snyder, 1983); America's Great Depression (Kansas City: Shjeed and Ward, 1975). Sobre os importantes precursores da análise de classe austríaca, veja L. Liggio, "Charles Dunoyer e o Liberalismo Clássico Francês", Journal of Libertarian Studies 1, no. 3, 1977; R. Raico, "Classical Liberal Exploitation Theory", idem; M. Weinburg, "The Social Analysis of Three Early 19th Century French Liberals: Say, Comte, and Dunoyer", Journal of Libertarian Studies 2, no.1, 1978; J. T. Salerno, "Comment on the French Liberal School", Idem; D. M. Hart, "Gustave de MOlinari and the Anti-Statist Liberal Tradition", 3 partes, Journal of Libertarian Studies 5, nos. 3 e 4, 1981.

10 Sobre isso, veja também H. H. Hoppe, A Theory of Socialism and Capitalism; idem "The Justice of Economic Efficiency", Austrian Economics Newsletter, 1, 1988; idem, "The Ultimate Justification of the Private Property Ethics", Liberty, Setembro 1988.

11 Veja sobre esse tema também Lord (John) Action, Essays in the History of Liberty (Indianapolis: Liberty Fund, 1985), F. Oppenheimer, System der Soziologie, Vol. II: Der Staat (Stuttgart: G. Fischer, 1964); A. Ruestow, Freedom and Domination (Princeton: Princeton University Press, 1986).

12 Sobre isso, veja M. N. Rothbard, "Left and Right: The Prospects for Liberty" in: idem, Egalitarianism as a Revolt Against Nature and Other Essays (Washington, D. C.: Libertarian Review Press, 1974).

13 Apesar de toda a propaganda socialista em contrário, a falsidade da descrição marxista dos capitalistas e trabalhadores como classes antagônicas também vem a carregar certas observações empíricas: logicamente falando, as pessoas podem ser divididas em classes de maneiras infinitamente diferentes. De acordo com a metodologia ortodoxa positivista (a qual eu considero falsa, mas pretendo aceitar aqui para argumentar), o melhor sistema de classficação é aquele que nos ajuda a prever melhor. Contudo, a classifciação de pessoas como capitalistas e trabalhadores (ou como representantes de variados graus da condição de capitalista ou da condição de trabalhador) é praticamente inútil para prever qual posição uma pessoa vai tomar sobre as questões políticas, sociais ou econômicas fundamentais. Ao contrário disso, a correta classificação de pessoas como produtores de impostos e regulados vs. consumidores de impostos e reguladores (ou como representativos de variados graus da condição de produtores ou consumidores de impostos) é de fato um poderoso previsor. Sociólogos têm quase sempre negligenciado isso por causa dos preconceitos marxistas quase que universalmente dividos entre eles. Mas a experiência cotidiana corrobora esmagadoramente minha tese: descubra se alguém é um funcionário público ou não (e sua posição e salário), e se a renda e a riqueza de uma pessoa é determinada, e em qual medida, pelas compras do setor público e/ou pelas ações regulatórias — as pessoas sistematicamente diferirão na sua resposta às questões políticas fundamentais, dependendo de suas classificações como consumidores diretos ou indiretos de impostos ou como produtores de impostos!

14 F. Oppenheimer, System der Soziologie, vol. 2, pp. 322-23, apresenta a questão dessa forma: "A norma básica do estado é poder. Isto é, visto pelo lado de sua origem: violência transformada em poder. Violência é uma das forças mais poderosas para moldar a sociedade, mas não é em si uma forma de interação social. Ela precisa se tornar lei no sentido positivo deste termo, isto é, sociologicamente falando, ela precisa permitir o desenvolvimento de um sistema de 'reciprocidade subjetiva'; e isso só é possível através de um sistema de restrições auto-impostas quanto ao uso de violência e com a presunção de certas obrigações por seus arrogados direitos. Neste sentido, a violência é transformada em poder e um relacionamento de dominação emerge que não é aceito somente pelos governantes, mas, sob circunstâncias não tão severamente opressivas, também pelos sujeitos, como expressando uma 'justa reciprocidade'. A partir dessa norma básica, normas secundárias e terciárias emergem como implícitas nela: normas de direito privado, de herança, de direito criminal, obrigacional e constitucional, as quais carregam a marca da norma básica de poder e dominação e que são todas designadas para influenciar a estrutura do estado de tal forma que aumente a exploração econômica ao seu nível máximo, o que é compatível com a continuação da dominação legalmente regulada". O insight fundamental é o de que "a lei nasce de duas raízes essencialmente diferentes (...): por um lado, a partir da lei da associação dos iguais, que pode ser chamada de direito 'natural', mesmo que não seja um 'direito natural', e por outro lado, a partir da lei da violência transformada em poder regulado, a lei dos desiguais".

Sobre a relação entre o direito privado e público, veja também F. A. Hayek, Law, Legislation, and Liberty, 3 vols. (Chicago: University of Chicago Press, 1973-79), esp. vol. 1, cap. 6 e vol. 2, pp. 85-88.

15 Veja J. Buchanan e G. Tullock, The Calculus of Consent (Ann Arbor: University of Michigan Press, 1965), p. 19.

16 Veja H. H. Hoppe, Eigentum, Anarchie und Staat (Opladen: Westdeutscher Verlag, 1987); idem, A Theory of Socialism and Capitalism.

17 Veja H. H. Hoppe, "Banking, Nation States and International Politics", Review of Austrian Economics vol. 4, 1989; M. N. Rothbard, The Mystery of Banking, caps. 15-16.

18 Sobre isso em particular, M. N. Rothbard, Man, Economy, and State, cap. 10, esp. a seção "The Problem of One Big Cartel"; também L. v. Mises, Socialism, caps. 22-26.

19 Sobre isso, veja, G. Kolko, The Triumph of Conservatism (Chicago: Free Press, 1967); J. Winstein, The Corporate Ideal in the Liberal State (Boston: Beacon Press, 1968); R. Radosh e M. N. Rothbard, eds. A New History of Leviathan (Nova York: Dutton, 1972); L. Liggio e J. J. Martin, eds., Watershed of Empire (Colorado Springs: Ralph Myles, 1976).

20 Sobre o relacionamento entre o estado e a guerra, veja E. Krppendorff, Staat un Krieg (Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1985); C. Tilly, "War Making and State Making as Organized Crime", in P. Evans et al., eds. Bringing the State Back In (Cambridge: Cambridge University Press, 1985); também R. Higgs, Crisis and Leviathan (Nova York: Oxford University Press, 1987).

21 Para uma versão mais elaborada desta teoria de imperialismo militar e monetário, veja H. H. Hoppe, "Banking, Nation States and International Politics", Review of Austrian Economics, vol. 4, 1990.

22 Sobre isso, veja em particular L. v. Mises, Theory and History (Auburn: Mises Institute, 1985), esp. parte 2.

23 Pode-se notar aqui que Marx e Engels, mais pronunciadamente no Manifesto Comunista, defenderam o caráter historicamente progressivo do capitalismo e elogiaram fortemente suas conquistas sem precedentes, De fato, revisando as passagens relevantes do Manifesto, J. A. Schumpeter conclui: "Nunca, eu repito, e em particular por nenhum moderno defensor da civilização burguesa, nada como isso foi escrito, nada foi composto dessa forma em favor da classe empresarial com uma compreensão tão profunda e extensa de quais foram suas conquistas e o que elas significaram para a humanidade." "The Communist Manifesto in Sociology and Economics", em Essays of J. A. Schumpeter, editado por R. V. Clemence (Port Washington, N. Y.: Kennikat Press, 1951), p. 293. Dada essa visão do capitalismo, Marx foi tão longe a ponto de defender a conquista britânica da Índia, por exemplo, como um desenvolvimento historicamente progressivo. Veja as contribuições de Marx ao New York Daily Tribune de 25 de junho de 1853, 11 de julho de 1853, 8 de agosto de 1853 (Marx e Engels, Werke, vol. 9 [Berlim Ocidental: Dietz, 1960]). Para um marxista contemporâneo tomando uma posição similar quanto ao imperialismo, veja B. Warren, Imperialism: Pioneer of Capitalism (Londres: New Left Books, 1981).

24 Veja sobre a teoria da revolução, em particular, Charles Tilly, From Mobilization to Revolution (Reading, Mass.: Addison-Wesley, 1978); idem, As Sociology Meets History (New York: Academic Press, 1981).

25 Para uma abordagem neo-marxista da era presente do "capitalismo tardio" caracterizado por uma "nova desorientação ideológica" trazida à tona pela permanente estagnação econômica e exaustão dos poderes legitimantes do conservadorismo e da social-democracia (i.e., "liberalismo" na terminologia americana), veja J. Habermas, Die Neue Unvebersichtlichkeit (Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1985); também idem, Legitimation Crisis (Boston: Beacon Press, 1975); C. Offe, Strukturprobleme des kapitalistischen Staates (Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1972).

26 Para uma abordagem austríaca-libertária do caráter de crise do capitalismo tardio e sobre os prospectos para o nascimento de uma consciência de classe libertária revolucionária, veja M. N. Rothbard, "Left and Right", idem, For a New Liberty, cap. 15; idem, Ethics of Liberty (Atlantic Highlands: Humanities Press, 1982), parte 5.

27 Sobre as inconsistências internas da teoria marxista do estado, veja também H. Kelsen, Sozialismus und Staat (Wien, 1965).
Hans-Hermann Hoppe (1949) é um economista/filósofo anarco-capitalista. Ensina economia na Universidade de Nevada, Las Vegas, e é autor de vários livros sobre filosofia política e economia. Mantém um website em HansHoppe.com.

Fonte: libertyzine

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